(Abril Music - 1999)
01. Tenha Dò
02. Descoberta
03. Anna Julia
04. Quem Sabe
05. Pierrot
06. Azedume
07. Lágrimas Sofridas
08. Primavera
09. Vai Embora
10. Sem Ter Você
11. Onze Dias
12. Aline
13. Outro Alguém
14. Bárbara
Video
Anna Julia
Quem Sabe
Primavera
RELEASE
O futuro psicólogo Rodrigo entrou em parafuso. O futuro desenhista industrial Patrick perdeu a linha. O futuro publicitário Bruno anunciou sua própria mudança. E os futuros jornalistas Marcelo e Amarante buscaram outra fonte. Barulho demais entrando pelos ouvidos desses caras faz com que o mercado de trabalho anda perigando perder cinco profissionais no mesmo momento em que a música brasileira ganha uma jóia rara de presente. Ela brilha num mundo em que o cinismo embaça a visão e as armações ilimitadas nos fazem tropeçar a toda hora. Ela brilha e se chama Los Hermanos. Guarde esse nome no seu coração.
Formado por Marcelo Camelo (voz, guitarra e jornalismo), Amarante (flauta transversa, voz e jornalismo), Patrick Lapan (baixo e desenho industrial), Rodrigo Barba (bateria e psicologia) e Bruno Medina (teclados e publicidade), todos estudantes da PUC do Rio, o grupo é um peixinho fora d’água, que nada contra a maré de vulgaridade que assola a terra e faz bonito ao tratar com sinceridade e respeito um tema tão banalizado como o amor. Mas não pise em falso.
O Los Hermanos não é uma banda romântica. Ou melhor, não é apenas uma banda romântica. É, na verdade, uma banda que surge com vários X marcados nos parênteses. Sim, toca com força hardcore. Sim, conhece o suingue do ska. Sim, tem balanço e cadência de samba. E, sim, sim, sim, tem um coração onde sempre cabe mais uma história de encontros e desencontros.
Los Hermanos, o disco, é o primeiro capítulo de uma história que começou a ser escrita em 1997, quando o embrião do grupo se formou. Daquela época, restaram apenas Marcelo e Rodrigo, que viram a formação do Los Hermanos se definir de vez um pouco antes da participação do grupo no Abril Pro Rock deste ano. Ali, chegando meio como azarão, se apresentando entre intoxicantes clones de Chico Science e massudas derivações do Planet Hemp, a banda se destacou por tocar o fino, um mix que reunia letras com um teor poético que remete aos bambas do samba (“Quem sabe o que é ter e perder alguém/Sente a dor que eu senti”) e uma parede sonora anárquica, cheia de balanço e potência. Algo como se cartola e Noel Rosa tivessem ouvido Husker Dú e Limp Bizkit. E gostado.
Pronto. O Brasil descobria o segredo que o underground carioca já cultuava há meses. Nem tinha como ser diferente. Duas fitas demo viciantes, alguns shows emocionantes e uma postura bacana, sem forçações de barra ou o perigoso uso de máscaras, fizeram o grupo se tornar rapidamente um favorito da galera alternativa. E na hora do banho ou no carro, tome fitinha no toca-fitas, até gastar, tocando a todo volume músicas como “Pierrot” (“O pierrot chora pelo amor da Colombina/E é sua sina chorar a ilusão, em vão, em vão”), aumentando a certeza de se estar diante de uma banda especial. O boca-a-boca, aditivado pela repercussão do show no Abril Pro Rock, rendeu frutos. E eles estão agora ao alcance de todos. Produzido por Rafael Ramos, velho conhecido e admirador do grupo, e por Rodrigo Castanho, um expert na arte de apertar os botões certos no estúdio, Los Hermanos foi gravado em três semanas no Studio Midas, em São Paulo, e depois mixado em Los Angeles. Um verdadeiro aprendizado, bem aproveitado por quem, como qualquer grupo iniciante, estava (mal) acostumado a apertadíssimas cargas horárias em estúdios de ensaio, nas quais até o tempo para fazer xixi era levado em conta.
Para o disco, migraram cinco músicas da primeira fita, e cinco da segunda. Outras, como a doce “Anna Júlia”, nasceram em cima do palco e foram transplantadas também para o disco, que conta com a participação especial de um naipe de metais e de Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, um ídolo da adolescência de todos Los Hermanos, que canta em “Bárbara”. São 14 músicas, curtas, diretas, objetivas, sinceras e emocionantes. E pronto. O primeiro passo foi dado. Pelo seu impacto fulminante, fica uma estranha certeza no ar: o futuro do Los Hermanos não está na escola. Talvez ele esteja nos corações alheios.
Carlos Albuquerque
Outubro/1999

